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É necessário ser mais que brilhante para fazer pesquisa no Brasil

Segundo Herman Hesse, escritor alemão, “Ave sai do ovo; o ovo é o mundo; quem quiser nascer precisa destruir o mundo”. De fato, a metáfora existencialista de Hesse faz cada vez mais sentido no Brasil. Nesse cenário, possuindo uma consistência de personalidade raramente vista, a obstetra brasileira Adriana de Oliveira Melo rompeu barreiras e provou até então, em 2015, o inimaginável: a relação do Zika vírus com a microcefalia.

           Em verdade, a paraibana especialista em ciência da saúde materno-infantil e atual presidente do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim (Ipesq) percebeu, durante sua rotina de atendimento médico às gestantes na cidade de Campina Grande, no sertão paraibano, que mulheres contaminadas pela Zika no primeiro trimestre de gestação geravam bebês com microcefalia [1]. Nessa perspectiva de observação clínica, foram então iniciadas pesquisas na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocuz) que constataram a presença do vírus da Zika no líquido amniótico de duas grávidas, cujos fetos desenvolveram microcefalia. [2]

         É nítido, portanto, que o espírito científico de Adriana de Oliveira acarretou impacto extremamente significativo no desenvolvimento da obstetrícia no Brasil. Além de todo o brilhantismo de ter percebido a relação direta que se dava entre o vírus e a microcefalia, a paraibana custeou toda a pesquisa com dinheiro do próprio bolso e aproveitou a cerimônia de recebimento da medalha Epitácio Pessoa, na Assembleia Legislativa da Paraíba, para desabafar:

         “Cheguei nos Estados Unidos e vieram me pedir estágios, achando que aqui somos como lá, que tem laboratórios e mais laboratórios, quando não tem sequer um aparelho de PCR aqui no Estado. As duas maiores autoridades em cérebro do mundo, uma de Israel e outra de Viena, me pediram para vir a Campina Grande ver a pesquisa. Mas como vou trazer essas pessoas se não tenho sequer um aparelho para eles trabalharem?” [3]

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        É evidente, que a médica obstetra rompeu com o mundo das limitações brasileiras para fazer pesquisa e entregou, assim, algo à sociedade que transcende até mesmo as dificuldades impostas pela burocracia e pelas más políticas. Dessa forma, Adriana foi muito além de seu brilhantismo – ela conseguiu ter personalidade para fazer algo improvável acontecer. 

        A História da Jornada Médica de Adriana de Oliveira segue subnotificada no Brasil, apesar dos inúmeros prêmios – alguns até internacionais. Por isso, o desafio agora é valorizar todo o trabalho da médica em um país onde a Zika continua existindo e aumentando – recentemente – seu número de vítimas. À luz disso, será possível fazer a diferença para aqueles que, como Hesse avisava, querem romper mundo e nascer com todas as suas potencialidades preservadas. 

Créditos: Ingrid Santana Oliveira – @ingridiso

Referências:

[1] e [2] Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Adriana_de_Oliveira_Melo

[3]: Correio da Paraíba: https://correiodaparaiba.com.br/cidades/saude-cidades/medica-que-descobriu-a-relacao-entre-zika-e-microcefalia-diz-que-falta-incentivo/ 
[4]: Imagem: www.oglobo.com.br

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