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HISTÓRIA DA PSICOPATIA E PERSONALIDADE PSICOPÁTICA

Salve, Salve, Doutores e Doutoras!

A sessão de História da Medicina foi idealizada devido ao nosso constante esforço por trazer conteúdos consistentes e informativos sobre o longo caminho percorrido pela nossa Ciência Médica Milenar, que impactam nossa rotina. Para uma inauguração nada mais justo que um tema de impacto! E porque não uma breve abordagem da História da Psicopatia?

Sempre existiram personalidades anormais como parte da população geral, sendo os psicopatas, indivíduos que se destacam na população devido ao seu comportamento, conduta moral e ética. Tais aspectos impactam várias esferas da sociedade há séculos: psiquiatria, antropologia, sociologia, antropologia e filosofia. 

Ao longo da História os conceitos relacionados a Personalidade Psicopática evoluíram bastante, desde a ‘’Psicopatia’’ até o atual ‘’Sociopata’’, tendo como fator de gênese uma multifatoriedade biopsicossocial. Devemos, portanto, nossas abordagens na temática ao trilhar do conhecimento proposto por vários médicos Épicos. Aqui detalharemos os 10 mais importantes. Sejam-bem vindos e aproveitem!

1. GIROLANO CARDAMO (1501-1596) 

Assim como Da Vinci, seu amigo pessoal, Cardamo tem mais de 200 trabalhos nas áreas de Matemática, Física, Filosofia, Religião, Música e Medicina. Foi professor de Medicina da Universidade de Pavia, o pioneiro na descrição clínica da Febre Tifóide, além de relatar uma das primeiras descrições relativos a Personalidade Psicopática. Tal relato se referia ao seu filho, que foi decaptado por envenenar sua mulhar com raízes venenosas, destacando o quadro de ‘’improbidade’’ podendo ser interpretado por perversidade ou maldade. Descartava como diagnóstio diferencial a insanidade, tendo em vista que tais indivíduos ainda apresentavam a capacidade de dirigir a vontade própria. 

2. PABLO ZACCHIA (1584-1659)

Como um clássico intelectual Renascentista, Pablo Zacchia (Paolo ou Paul Zacchias à depender da origem do idioma) foi um Médica italiano, poeta, filósofo, professor da Ciência Médica e médico forense, sendo considerado o fundador da Psiquiatria Médico Legal. Em seu trabalho ‘’Questões Médico Legais’’, pode-se encontrar conceitos que se tornariam as bases, tanto para os ‘’transtornos de personalidade’’, como para às ‘’psicopatias’’.

3. PHILIPPE PINEL (1745-1826) 

Francês, oriundo de uma família de Médicos, diplomado em Toulouse, estudou mais quatro anos na Faculdade de Medicina de Montpellier, sendo considerado o Pai da Psiquiatria. Em 1801, publica um ‘’Tratado Médico Filosófico sobre Alienação Mental ou a Mania’’, desfalcando o delírio. Pinel chamava de mania os estados de furor persistentes e comportamento florido, distinto do conceito de mania da atualidade.  

1793, Paris, Dr. Pinel ‘’Libertando’’ os portadores de doenças mentais, que eram considerados amaldiçoados por Deus e encarcerados. Ao libertá-los um considerado ‘’psicopata’’ disse: ‘’Como é belo o raio de sol, há anos que não o via. Obrigado!’’, respondendo o Doutor: ‘’Eu quem agradeço. Doentes Mentais somos nós que encarceramos os sofredores’’. Sendo assim, Pinel foi o pioneiro a abordar os pacientes mentais com respeito e com a óptica de paciente e ‘’sofredor’’.  

4. JAMES COWLES PRICHARD (1786-1848) 

J. Prichard médico britânico com atuação na tanto na Psiquiatria, quanto na etnologia, vertente da antropologia cultural e social responsável por apreciar de maneira analítica o estudo comparado entre civilizações e culturas. Assim como Dr. Pinel, lutava contra a ideia do filósofo Locke de que não podia eistir mania sem delírio, ou seja, mania sem déficit intelectual. Juntos exaltavam o conceito de que existiam insanidades sem comprometimento intelectual, mas com possível déficit afetivo e volitivo (vontade). Postulavam, portanto, três funções mentais que poderiam ser afetadas: 1) intelecto, 2) afetividade, 3) vontade.

Em 1835, Prichard publica ‘’Tratado da Insanidade e outras Desordens que afetam a Mente’’, abordando a Insanidade Moral, o conceito pilar da Psicopatia. 

5. JULIUS LUDWIG KOCH (1841-1908) E OTTO GROSS (1877 – 1919) 

Médico alemão criador das bases para o estudo dos Transtornos de Personalidade, Koch em 1888, ao abordar ‘’Inferioridade Psicopática’’, se refere ao sentido social e não moral, como seus antecessores. Em sua análise, se tratava de etiologia congênita e permanente ao indivíduo, podendo ser divididas de três formas: 1) Disposição Psicopática; 2) Tara Psiquíca Congênita e 3) Inferioridade Psicopática

Já Otto Gross, médico austríaco, acreditava que diferenças no caráter eram justificadas pelo retardo dos neurônios para estabilizarem após descarga elétrica. Afirmava, portanto, que indivíduos tranquilos eram aqueles de recuperação neuronal rápido, e aqueles de repolarização lenta (com maior duração de estímulos) eram mais excitados e portadores de ‘’Inferioridades Psicopáticas’’. 

6. EMIL KRAEPELIN (1856-1926) 

Considerado pai da Genética Psiquiátrica e Psiquiatria Moderna, postulava que doenças psiquiátricas são de causas biológicas e genéticas, formulando um novo modelo diagnóstico e classificando as doenças mentais em 1904. Usou o termo ‘’Personalidade Psicopática’’ para referir-se, de maneira precisa, a indivíduos não neuróticos, nem psicóticos, não maníaco-depressivos, mas que se mantém e constante choque com os parâmetros sociais vigentes. Acabou por incluir: criminosos congênitos, a homossexualidade, estados obsessivos, a loucura impulsiva e os inconstantes. 

Emil Kraepelin acreditava que as Personalidade Psicopáticas eram formas de psicose, de causa genética e que apontavam prejuízos estritamente à vida afetiva e à vontade.

7. KURT SCHNEIDER (1887-1967)

Notável em seus estudos diagnósticos e no entendimento da Esquizofrenia, dos Transtornos de Personalidade (em especial da Personalidade Psicopática), sendo o formulador da Psicopatologia Clínica, através de sistemática clínica, delimitação do conceito de doença e dos sintomas de primeira ordem. Na sua classificação a personalidade incluia: inteligência, instintos e sentimentos corporais e como distinção elementos como: sentimentos e valores, tendências e vontade.

Afirmava que o psicopata não é ou foi ‘’acometido’’ por uma psicopatia, ele é um psicopata, é sua maneira de existir e se relacionar com o meio. E, apesar do aspecto inato e constitucional da psicopatia, apresenta fases e circunstância de adaptabilidade, no qual eles podem se ‘’camuflar’’ em áreas de desempenho social. É essa dissimulação que permite a sobrevivência social. 

Kurt Schneider postulava como Personalidades Psicopáticas, aquelas com desvios de normalidade que não tinham substrato para ser categorizado por doenças mentais francas e as classificava, como: 1) Hipertímicos; 2) Depressivos; 3) Inseguros; 4) Fanáticos; 5) Carentes de Atenção; 6) Emocionalmente Lábeis; 7) Explosivos; 8) Desalmados; 9) Abúlcios e 10) Astênicos. A categoria nomeada por ‘’Desalmados’’ seriam os que hoje compreendemos por psicopatia ou sociopatia. 

8. EMILIO MIRA Y LÓPEZ (1896-1964) 

Sociólogo, médico psicólogo e psiquiatra, foi professor de Psicologia e Psiquiatria na Faculdade de Medicina Complutense de Madrid. Enxergava na fisiologia o fator causal crucial para manifestação da psiqué, afirmando que  os estados mentais estavam intrinsecamente ligados à relação entre os órgãos sensoriais e a relação do indivíduo com o mundo interno e externo. Definiu a Personalidade Psicopática como ‘’..aquela personalidade mal estruturada, predisposta à desarmonia intrapsíquica, que tem menos capacidade que a maioria dos membros da sua idade, sexo e cultura para adaptar-se às exigências da vida social’’. Considerava 11 tipos: 1) Astênica; 2) Compulsiva; 3) Explosiva; 4) Instável; 5) Histérica; 6) Ciclóide; 7) Sensitivo-paranóide; 8) Esquizóide; 9) Perversa; 10) Hipocondríaca; 11) Homossexual 

9. HARVEY MILTON CLECKEY (1903-1984) 

Psiquiatra Americano pioneiro no campo da Psicopatia através da publicação de ‘’A Máscara da Sanidade’’, em 1941 com posteriores revisões até 1980, provendo a melhor descrição clínica do tema no século XX. 

‘’O que é feio ou belo, exceto em um sentido muito superficial, bondade, maldade, amor, horror e humor, não têm nenhum significado real, nenhum poder para movê-lo’’, escreveu Clackley. Afirma também que o psicopata fala de forma a entreter o outro e que é extremamente charmoso, não obstante ‘’trás desastre em cada mão’’. Em 1964, descreveu as características mais frequentes do que hoje conhecemos. Cleckley, estabeleceu, em “The Mask of Sanity”, alguns critérios para o diagnóstico do psicopata, sendo que em 1976, Hare, Hart e Harpur, completaram esses critérios. Somando-se as duas listas podemos relacionar as seguintes características:

1. Problemas de conduta na infância.

2. Inexistência de alucinações e delírio.

3. Ausência de manifestações neuróticas.

4. Impulsividade e ausência de autocontrole.

5. Irresponsabilidade

6. Encanto superficial, notável inteligência e loquacidade.

7. Egocentrismo patológico, auto-valorização e arrogância.

8. Incapacidade de amar.

9. Grande pobreza de reacções afectivas básicas.

10. Vida sexual impessoal, trivial e pouco integrada.

11. Falta de sentimentos de culpa e de vergonha.

12. Indigno de confiança, falta de empatia nas relações pessoais.

13. Manipulação do outro com recursos enganosos.

14. Mentiras e insinceridade.

15. Perda específica da intuição.

16. Incapacidade para seguir qualquer plano de vida.

17. Conduta anti-social sem aparente arrependimento.

18. Ameaças de suicídio raramente cumpridas.

19. Falta de capacidade para aprender com a experiência vivida.

10. HENRY EY (1900 – 1977) 

Henry Ey foi um médico frânces, neurologista, psiquiatra, psicoanalista e filósofo, elaborador da psicologia organodinâmica e a teoria da estrutura dos estados de consciência. Em seu ‘’Tratado de Psiquiatria’’, as Personalidades Psicopáticas está dentro do capítulo de doenças mentais crônicas, consideradas como um desequilíbrio psíquico resultantes de anomalias intrínsecas das pessoas. Cita as características básicas desse tipo, como sendo a anti-sociabilidade e impulsividade, sendo que a ideia de Transtornos de Personalidade, tal como sugerido pelo DSM, começaram em 1966 com Robbins. 

PERSONALIDADE PSICOPÁTICA:

Hoje é caracterizada principalmente por ausência de sentimentos afectuosos, amoralidade, impulsividade, falta de adaptação social e incorrigibilidade.

O que se destaca em relação ao conceito de Personalidade Psicopática são as controvérsias entre os vários autores e nas várias épocas, no entanto, de alguma forma, há uma forte tendência em se apontar para dois conceitos básicos:

  1. tendência mais constitucionalista (intrínseca), entendendo que o psicopata se origina de uma constituição especial, geneticamente determinado e, em consequência dessa organicidade, pouco se pode fazer.
  2. tendência social (extrínseca), acreditando que a sociedade faz o psicopata, a sociedade faz os seus próprios criminosos por não lhes dar os meios educativos e/ou econômicos necessários.

‘ Nas décadas sucessivas de 60 e 70, foram também definindo os traços característicos da psicopatia com termos tais como; perturbações afectivas, perturbações do instinto, deficiência superegoica, tendência a viver só o presente, baixa tolerância a frustrações. Alguns classificavam esse transtorno como anomalias do caráter e da personalidade, ressaltando sempre a impulsividade e a propensão para condutas anti-sociais.

A maioria dos autores dessa época procurava substituir o conceito de “constituição psicopática” por “personalidades psicopáticas”, já que a sua etiologia não era claramente definida. Mas, apesar da etiologia não ser claramente entendida, o quadro clínico da personalidade psicopática foi sendo cada descrito com mais clareza até os dias de hoje. 

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