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A ORIGEM SIMBÓLICA DO CORAÇÃO COMO CENTRO DA VIDA (E DO SOFRIMENTO)

Salve, salve, doutores e doutoras!

Em tempos onde a tecnologia está cada vez mais abrangente, alcançando fronteiras inimagináveis para antigos hipocráticos e nos tornando cada vez mais ilimitados em funções,  nós estamos, também, cada vez mais reféns da mesma tecnologia. 

Se em outros tempos houve pouca informação e se ‘’fosforilava’’ muito para conquistar e consolidar conhecimento, hoje vivemos em uma geração inundada de informações, com o conhecimento de toda a História do homem na palma da mão. Tudo aquilo que pode ser terceirizado para a tecnologia é atrativo para nós. Tal cenário acaba por criar certa dependência e uma terceirização de raciocínio para a tecnologia, inclusive em nossa prática médica: muitos terceirizam o raciocínio clínico em prol de listar vários exames complementares. 

Diante desse contexto, este artigo tem a missão clara de ‘’abduzir’’ você, Doutores e Doutoras, de sua rotina árdua, acelerada e chamar a atenção para não cometer o erro de  terceirizar sua relação médico-paciente. Nada mais justo do que tocar o coração, não é mesmo? Trouxemos, então, um artigo da Sociedade Brasileira de Cardiologia com enfoque no significado simbólico do coração. Aproveite!

O Significado Simbólico do Coração e o Lado Humano da Medicina

Você já ouviu falar de arquétipo? De maneira simplista: é um conceito criado pelo glorioso Dr. Carl Jung que aborda o conceito de uma herança do inconsciente coletivo. Algo herdado que independe de nossa etnia, região e influi significativamente em nossa maneira de atuar e interpretar o mundo. O significado simbólico do coração nasceu em épocas remotas, presente em inúmeras culturas e mitos, fato que endossa ainda mais o valor do coração como um arquétipo, meus caros.

Em uma caverna de Oviedo, na Espanha, denominada El Pindal, há um mamute retratado com um coração pintado em seu centro, que data de 15.000 anos antes de Cristo (Fig. I.1) . O homem que lá habitava, ao reproduzir o coração daquele animal, estava por certo a considerá-lo como o “centro da vida”, local que deveria atingir com sua lança para abatê-lo. Se desejarmos fazer uma bela comparação, podemos colocar ao lado da silhueta do mamute a obra-prima de Matisse (Fig. I.2).

Figura I.1: Mamute (Lyons, 1997). Figura I.2: A queda de Ícaro — pintada em 1947

Em ambas as obras, o coração é o órgão que mereceu figurar no centro da composição pictórica, representado quase da mesma maneira, apenas insinuando sua forma anatômica, deixando entrever sua importância, responsável que é pela circulação do sangue ou da energia vital.

As Origens do Símbolo do (Cupido) Amor

Fig. II.1:Coração trespassado por uma flexa.  Índia há 6.000 anos; Fig II.2: Coração de Maria (1100-1250d.C);

Fig. II.3: sacrifício asteca do coração 

Esse símbolo que é até hoje representado por uma  seta trespassando um coração, surgiu na Índia há cerca de 6.000 anos (Fig. II.1) Lá encontramos a figura de um jovem lançando uma seta nos corações de Shiva (Deus Masculino) e de Shakti (Deusa do Amor). Este mesmo símbolo renasceu na Grécia 4.000 anos depois, com o nome de Cupido, que atravessou os séculos chegando até nós, caracterizando o coração como a “sede do amor”

Se buscarmos a vertente religiosa, componente importante do inconsciente coletivo de todos os povos, vamos encontrar na Idade Média, entre os anos 1100 e 1250, o surgimento do culto ao coração de Jesus e de Maria, transferindo para este órgão o “local onde nasce e vive a fé em Deus”. Na mesma linha, o coração de Maria (Fig. II.2), mãe de Cristo, começou a ser venerado, no século XVII, através de São José Eudes, circundando o coração de Maria uma coroa de rosas.

Se incursionarmos em outras civilizações, doutores e doutoras,  vamos ver que a tradição do sacrifício do coração (Fig II.3) era comum nos rituais religiosos entre os habitantes do México e da América Central.  Para que o Deus Quetzolcoatl — o Deus Sol — pudesse vencer sua batalha diária contra a Lua e as 400 estrelas, sobrepujando a escuridão, tinha de ser alimentado continuamente com a comida mais sagrada: o coração e o sangue humano

DISTÚRBIOS EMOCIONAIS E DOENÇAS CARDÍACAS

Alimentada por mitos, cultos religiosos, símbolos afetivos, incluindo o que temos de mais importante na vida — o amor, a fé, a própria sobrevivência — não há porque estranhar a estreita relação entre os distúrbios emocionais e as doenças cardíacas.

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Figs. III.1 e III.2: ‘’dores do coração’’: um provocado por isquemia miocárdica (Netter) e outro pela perda da amada (Munch)

Se tomarmos a clássica figura do Atlas de Netter (1987), que caracterizou o caráter constritivo da dor isquêmica, e a compararmos com o gesto do homem que sente no coração a dor da separação, na tela de Munch, de 1896, exatamente com o título de “A Separação”, podemos ver como são semelhantes os gestos e, talvez, o próprio sofrimento. 

Para exemplificar essa situação peculiar fruto do arquétipo milenar do coração, finalizamos o artigo com um relato do próprio Dr. Celmo Porto sintetizando a abordagem que tivemos do artigo e deixando aberta à sua livre interpretação reflexiva da temática, Doutores e Doutoras: 

‘’De uma maneira muito clara compreendi o significado simbólico do coração na minha prática médica, quando um paciente portador de bloqueio atrioventricular total de etiologia chagásica voltou ao meu consultório dois meses após o implante de um marcapasso artificial, dizendo “Doutor, quero que retire este aparelho porque não estou agüentando a dor de viver com o coração amarrado!” Percebendo que suas palavras traduziam um verdadeiro sofrimento e na tentativa de compreendê-lo melhor, dei-lhe uma caneta e uma folha de papel e pedi que me mostrasse em um desenho como sentia o seu coração. Sem titubear, delineou o coração simbólico, com um relógio ao lado, do qual tirou um “fio” que foi “enrolando” no coração (Fig. I.11). Logo a seguir, pedi ao cirurgião que realizou o implante do marcapasso para me mostrar como explicava tal procedimento ao paciente. De uma maneira rápida e objetiva o colega fez um círculo, um gerador de estímulos, do qual nascia um fio cuja ponta (em forma de seta) ia se fixar dentro de uma cavidade (o coração). E explicava: “O marcapasso é um aparelho muito simples. Tem um gerador do tamanho de um relógio. Dele sai um fio que vai até o coração, onde dá um pequeno choque, fazendo o coração bater certinho (Fig. IV).

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Figura IV: desenho do MP artificial feitos pelo paciente angustiado e pelo cirurgião

‘’O paciente partiu daquele inocente esquema e o interpretou culturalmente, transformando o gerador em um relógio de verdade — que marca o passar do tempo, ou seja, a vida. O círculo que representava a cavidade ventricular tomou a forma do coração simbólico e o fio mudou o trajeto, simples na explicação do cirurgião, mas que na compreensão do paciente, passou a ser um arame que envolvia (amarrava!) o coração. Compreendi claramente o sofrimento do paciente e mais ainda o lado humano da medicina’’

Esperamos que este texto tenha tocado cada um de vocês para o fato de que lidamos com vidas, com o lado humano da nossa prática médica. Seu paciente não é um leito, é um indivíduo complexo dotado de psiqué, relacionamentos, sentimentos, expectativas e vivências socioculturais mais complexas ainda! Acima de tudo, um humano como eu e você, não um simples prontuário, um quebra-cabeça de informações binárias a ser resolvido.

Referências: 

1. Clarke, J.J.: In Search of Jung. Historical and Philosophical Enquiries. Routledge, London, 1992.

2. Groddeck, G.: La Maladie, L’Art e Le Symbole. Ed. Gallimard, Pavi, 1969.

3. Helman, C.G.: Cultura, Saúde e Doença. 2.a ed., Artes Médicas, Porto Alegre, 1994.

4. Helman, J.: The Thought of the Heart. Spring Publ., Dallas, 1981.

5. Jung, C.G.: Man and his symbols. Pan Books, London, 1978.

6. Landy, D.: Culture, Disease and Healing. MacMillan Publ., New York, 1977.

7. Lewinsohn, R.: História Universal do Coração. Ed. Livros do Brasil, Lisboa, s/data.

8. Lyons, A.S., Petrucelli, H.: História da Medicina. Editora Manole, São Paulo, 1997.

9. Nager, F.: The Mitology of the Heart. Ed. Roche, Basel, 1993.

10. Netter, F.H.: The Ciba Collection of Medical Illustrations. 1987.

11. Pessoa, F.: O Eu Profundo e os Outros Eus. 19.a ed., Ed. Nova Fronteira, 1980.

12. Ramos, D.G.: A Psique do Coração. Ed. Cultrix, 1990.

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